Stana Katic falou sobre a terceira temporada de Absentia, incluindo a dinâmica familiar em constante mudança de Emily e a experiência da atriz como produtora executiva.

A terceira temporada de Absentia estreou no Amazon Prime em 17 de julho e a série de suspense mostrou sua heroína lutando por sua família mais uma vez. A série foi ao ar pela primeira vez em 2017, focando na atuação brilhante de Stana Katic como a agente do FBI Emily Byrne, que foi resgatada do cativeiro depois de seis longos anos e partiu para juntar os pedaços de sua vida, quando ameaças familiares ressurgiram ao seu redor.

No início da terceira temporada, Emily está finalizando seus dias de suspensão do FBI, mas hesitando em voltar. Em vez disso, ela está mais focada em cuidar de seu filho Flynn (Patrick McAuley) com a ajuda de seu ex-marido (Patrick Heusinger). Mas, como tende a ser o caso, seus planos são interrompidos quando uma pista destinada a resolver a última série de crimes leva o perigo direto à sua porta.

Katic, que não apenas estrela o drama da Amazon [no Brasil, no Canal AXN], mas também o produziu, conversou com o Screen Rant sobre sua paixão pela série. Ela compartilhou sua visão sobre o processo criativo dos bastidores e mergulhou mais profundamente nos relacionamentos de Emily não apenas com sua família, mas também com sua fonte relutante, Kai (Kaja Chan) e seu ex-parceiro no FBI, Cal (Matthew Le Nevez). Spoilers específicos foram evitados, mas não custa nada maratonar a terceira temporada antes de ler.

Nesta temporada de Absentia, o caso está mais próximo a nós com imigrantes sendo maltratados e até mesmo a ideia de um cartel de tráfico de órgãos. Os escritores têm consultores do FBI ou fazem conexões com o mundo real ao discutir a logística de cada enredo?

Stana Katic: Will Pascoe é nosso showrunner e ele tem um contato no FBI; ele também possui contatos com ex-Forças Especiais e assim por diante. Então, ele estava usando os cérebros deles como pontos de referência e os usando como consultores durante todo o processo. Ele até trouxe um agente, porque os caras queriam conhecer alguém. Ele trouxe um ex-agente do FBI, que foi tão gentil e generoso com informações sobre casos em que ele havia trabalhado. Ele também era ex-militar, então ele pôde compartilhar algumas dessas informações.

Claro, é nosso trabalho tentar usar referências do mundo real. Os roteiros foram feitos há um ano e terminamos as gravações no final de dezembro. Então, muitas coisas que saíram desde então são uma coincidência estranha. Não acho que ninguém teria previsto isso.

Mas, além de buscar recursos do mundo real, e simplesmente estando cientes do que está acontecendo no globo, tínhamos uma equipe e um elenco que basicamente vinha de todos os lugares – fossem eles vindos de ou originários dos países Canadá, EUA, Israel, Costa Rica, Bulgária, Inglaterra, Austrália, África do Sul, França, Noruega, País de Gales, Polônia, Suíça, etc. Do nosso showrunner e produtores ao nosso elenco e equipe, este é um grupo de pessoas que deram à nossa história uma enorme quantidade de atenção e também experiência no mundo real. As pessoas que eram de Israel estavam acompanhando de perto as eleições que estavam acontecendo na época e isso faz parte do diálogo. Algumas de suas experiências também fizeram parte do diálogo no set e algumas das experiências de pessoas da Bulgária e da África do Sul e assim por diante.

Esta é uma história global influenciada por pessoas de todo o mundo. E isso é algo que eu acho que é crédito da cultura da série que foi sustentada pelo nosso showrunner, que é que a melhor ideia vence. Se um cenógrafo tiver uma ideia de como resolver o problema, nós o escutamos. Se um cara do som lhe desse um sinal de positivo no final do dia, você poderia ir para casa satisfeito, sabendo que foi realmente um ótimo dia. Porque todos participaram da produção da série e todos se empenharam em contar a melhor história que podiam.

Algumas dessas pessoas tiveram experiências da vida real que eles podiam compartilhar para expandir o escopo da história. Dito isso, a sala dos roteiristas propositalmente – ou talvez não, só para saber – tinha um histórico de grupo muito amplo. Isso. E ums roteirista, cuja descendência era mexicana-estadunidense, foi muito influenciada por algumas das discussões sobre a fronteira que estava acontecendo. Especialmente das crianças sendo separadas dos pais e isso é algo que eu acho que inspirou parcialmente a história dos refugiados sírios. Para outras pessoas na história e pessoas que participaram, elas sabem sobre os refugiados sírios, porque elas estão na Europa e foi uma experiência muito real para todas elas. Houve uma enxurrada de pessoas da Síria que passaram por países europeus nos últimos dois anos ou mais.

No final das contas, esta é uma equipe muito global, e eles trouxeram suas experiências da vida real. E também trouxeram uma consciência das atividades em todo o mundo.

Claro, você também é produtora executiva de Absentia e tenho certeza que dá alguma contribuição. Isso influenciou ou inspirou você de alguma maneira a continuar perseguindo o lado criativo ou de negócios da narrativa?

Stana Katic: Eu acho que existem alguns atores que são apenas atores e eu acho isso lindo. Eles são poderosos; eles são ótimos contadores de histórias nesse sentido. Mas existem alguns atores que são contadores de histórias e eu conheci vários deles. Eu trabalhei ao lado de um; Matt Le Nevez é um contador de histórias incrível. No final das contas, aí é onde me encaixo mais confortavelmente.

Mesmo em trabalhos anteriores, eu sempre me sentei na mesa de vídeo e observava os diretores e conversava com eles e os escritores. Eu perguntava o porquê deles estavam usando esta tomada. Qual é a intenção psicológica por trás de colocar um personagem no canto superior direito e no canto inferior esquerdo? Coisas assim. E eu sempre fui bem recebida por toda a equipe para entrar ao mundo deles.

As pessoas compartilharam sua arte comigo, desde operadores de câmera, que me deixavam dar uma olhada nas cenas que eles estavam fazendo e às vezes até rodar a câmera por uma ou duas tomadas, até figurinistas e cenógrafos e assim por diante, que sempre me levavam a seus escritórios sempre que eu os visitava para passar o tempo. E então comecei a fazer perguntas, como você faz quando está trabalhando com pessoas por muitos anos. Eu realmente amo o mundo de fazer uma história nessa perspectiva global abrangente e contribuir para a história desse ângulo, bem como contribuir para a história da perspectiva de um personagem.

Ser recebida e acolhida pelo lado da produção foi um presente – e isso foi algo que me foi oferecido no início do processo desta série. E eu acho que, de muitas maneiras, cabe a atores e atrizes, embora eu geralmente não use esse termo, se sentarem à mesa se o lugar for oferecido a você. E podemos oferecer uma perspectiva no desenvolvimento de histórias que nem sempre podem ser imediatamente pensadas ou disponíveis se não ocuparmos este lugar. É bom poder contribuir; foi bom poder colaborar.

Digo isso genuinamente, trabalhei com um ótimo grupo de pessoas. Tivemos desafios ao longo do caminho. Você nunca tem tempo suficiente, nunca tem um orçamento grande o suficiente, nunca tem o clima perfeito e coisas assim. Então, você está constantemente pensando rápido e tentando fazer as coisas fazerem sentido. E eu sei que quando estávamos ao telefone para algumas dessas reuniões, ríamos de alguns pontos depois de refletir sobre o assunto por horas. Ficávamos, “Alguém vai saber o quanto analisamos em excesso essa minúcia de um detalhe?” Estamos debatendo pequenos detalhes sobre “Como isso se encaixa no arco do personagem do Nick?” Esses tipos de minúcias e no final ficávamos, “O público nunca vai saber de nada.” Mas ninguém conseguia desistir. Era  aquela última pincelada que era realmente importante para todos, tentar extrair o melhor que pode de uma história como essa em um orçamento como esse e em uma linha do tempo como essa. Tipo, putz grila.

Falando no arco do Nick, a dinâmica familiar é muito importante e central para a personagem de Emily. Ela quase parece estar o mais estável que já esteve, no início da terceira temporada, embora ainda haja a horrível verdade sobre Alice que até o Flynn ainda não sabe. Como Emily manobra essa nova dinâmica?

Stana Katic: O estilo parental de Emily é diferente do de Nick. Nick é protetor em manter uma versão idealizada do mundo e da vida para seu filho. Enquanto Emily sempre foi uma mãe que dizia: “Não, diga a verdade a ele. Vou contar a verdade aos meus filhos sempre, não importa o que aconteça.

Tudo o que a motivou nas últimas três temporadas foi o Flynn. O amor dela pelo filho, os medos dela pela segurança dele – estou falando até mesmo sobre a segurança dele em relação a ela e do que ela era capaz, assim como a segurança do mundo que a criou. Este é um mundo muito mais sombrio do que qualquer pessoa ao seu redor poderia ter imaginado. Acho que ela sempre foi protetora com ele e com a estabilidade dele e é por isso que ela assume esse papel de co-parentalidade da maneira que ela faz. Tipo, ela está morando no porão de Nick. Não é chique. Ela não cruza para o andar de cima da casa tranquilamente. Quando ela sobe as escadas, esse é um limite que ela pediu para ultrapassar conscientemente e que está muito ciente. Não é como se ela estivesse andando livremente pela casa; ela está lá para apoiar e manter seu filho seguro e são.

Acho que o que acontece esta temporada é que testemunhamos Flynn crescer. Ele cresce e sai da asa protetora dessa mãe nada convencional e essa iniciação na vida adulta resulta em mudanças irreversíveis para esta família. Quando falo sobre família, a órbita de Emily é Warren, que é o patriarca dessa família e que sempre pressionou seus filhos para que a família estivesse em primeiro lugar; acima de qualquer instituição, acima de qualquer lei, acima de qualquer coisa. Esse cara é uma figura ocidental clássica.

Então, acho que quando Flynn cresce nesta temporada, isso mudará as coisas permanentemente para sua família, que é para o melhor. Tipo, ele mostra que é filho de sua mãe no final das contas. Ele é o pequeno Batman, com certeza.

Uma das dinâmicas que eu realmente adorei nesta temporada, que eu não esperava, foi da Kai e da Emily. Você pode falar sobre seu relacionamento fora das telas com Kaja Chan, bem como sobre como a Emily se sentiu em ter essa fonte sob sua proteção?

Stana Katic: Sim. Primeiro de tudo, a dinâmica no set é que eu adorei essa atriz. Ela é forte; ela veio tão bem preparada. Ela é tão esperta e adicionou valor agregado ao longo do processo e topava qualquer coisa. Fico feliz que você tenha gostado da dinâmica, porque tentamos botar para fora o máximo possível. Há uma química estranha entre as duas, que é a de irmã mais velha-irmã mais nova, de certa forma.

No final das contas, Kai é uma hacker. Ela traz o pior do mundo para a órbita da família de Emily – sem querer, mas traz. Esse é o catalisador para tudo o que acontece nesta temporada e isso,eventualmente, leva ao sequestro de Nick. Isso simplesmente acaba com toda a base de segurança para a família. Acho que, para Emily, Kai como personagem é uma responsabilidade; uma responsabilidade relutante. Ela é meio chata com a Emily muitas vezes, sabe? Há algo muito encantador em como, eventualmente, elas meio que se apaixonam uma pela outra e, no final das contas, cuidam uma da outra. Eu acho que há uma mudança para Kai, também, onde ela percebe que as ações que ela tomou destruíram essa dinâmica familiar; esta dinâmica familiar muito precária. Mesmo que seja não intencional.

E acho que, para a Emily, ela assume a responsabilidade de salvar essa pessoa em risco ou protegê-la. Por mais marginalizada que Emily seja, por mais contra sossegar que ela seja, acho que o que a torna uma heroína é que ela protege aqueles que são vulneráveis ​​e estão em risco. Vemos [a ajuda dela] várias vezes ao longo dessas comunidades e pessoas que estão em risco. Isso é parte da mudança, porque toda aquela energia estava realmente focada em seu filho e, eventualmente, ele se torna independente. Ele pode se defender sem a ajuda dela e quando isso é revelado a todos, essa energia também muda para o mundo em geral. Isso é parte do grande arco geral da história.

Sem estragar o final, devo dizer que amo o Cal e seu relacionamento com a Emily. O que você acha que o diferencia como o parceiro certo para ela?

Stana Katic: Eu acho que ele é um mistério e ele será um mistério durante uma grande parte desta temporada. E acho isso uma coisa boa. Tudo o que os contadores de histórias fizeram – da fotografia aos ângulos da câmera e pausas para tudo – foi tudo com propositalmente com a finalidade de manter Cal um mistério até que você entenda suas verdadeiras intenções. O que você realmente não entende até o finalzinho. Esses são dois personagens deslocados; eles são alienígenas. São personagens que viram o pior da humanidade e de si mesmos.

Em última análise, para eles, todos têm um anjo e um demônio dentro deles. E eles realmente enfrentaram seus próprios demônios. Eles o viram e isso é algo do qual muitas pessoas não conseguem voltar. Vemos isso em guerreiros feridos que voltaram de batalhas em todo o mundo ao longo da história. Estamos falando sobre estresse pós traumático militar, estamos falando sobre tudo isso. As pessoas têm dificuldade em voltar à sociedade normal, porque elas viram como tudo pode ficar louco. É daí que vem um milhão dessas histórias que são muito, muito reais, sobre pessoas vendo o pior que os humanos são capazes de fazer.

Esses dois personagens são alienígenas no âmbito do globo, porque eles viram o pior e é impossível se reintegrar quando se viu isso. Então, de repente, esses dois deslocados cósmicos se encontram e há uma compreensão realmente profunda. E através dessa compreensão, também há a capacidade de perdoar um ao outro. Porque o que eles vêem é que, embora tenham visto o pior da humanidade e também tenham participado disso – não por escolha própria, porque você pode ir para a escuridão de propósito por causa de finanças ou aclamação, mas você também pode ir para a escuridão e nem perceber que as escolhas de vida que você fez o enviaram nessa direção.

Então, não por escolha, mas eles estão lá. E é muito difícil sair disso, quando você sabe que isso está em você, nas pessoas ao seu redor e no mundo em geral. É. E ao se encontrarem, eles se veem e são capazes de se perdoar e se perdoar. Há uma cura na união.

Se você pensar nesse cara, ele viu de tudo. Ele provavelmente teve que manter amigos que viram o combate ou teve que sair dessa experiência de combate. Nesta temporada você entende isso. E as coisas sobre as quais falamos, estamos apenas mencionando nisso. Você poderia fazer uma série inteira somente sobre o Cal e a experiência dele. E a verdade é que tínhamos pessoas no set que diziam, “Não, é assim que acontece.” Então, este é o mundo real, em última análise. Só dá para indicar isso em uma história como a nossa, que tem uma trajetória claramente traçada pelas experiências dessas pessoas e pelas repercussões dessas experiências.