Stana Katic está de passagem pela Argentina e o jornal La Nacion teve a oportunidade de entrevistá-la.

De Castle para Buenos Aires

por Natalia Trzenko

A passeio na Argentina, a protagonista da famosa série da AXN fala de sua personagem na TV e de seus projetos além dela

Stana Katic, a atriz que interpreta a inteligente e decidida detetive Kate Beckett, em Castle, série exibida pela AXN, está de passagem pela Argentina e, em sua viagem por Buenos Aires, não pergunta pelos melhores restaurante e nem pelos shoppings mais próximos. O que interessa à atriz nascida no Canadá e criada nos Estados Unidos são os detalhes da rede de metrô local, ela quer saber dos coletivos e se é verdade, como lhe pareceu em seus primeiros passeios pela cidade, que os habitantes praticam tanta yoga como parece indicar os muitos lugares dedicados a isso que ela viu. Sua curiosidade e desejo de conhecer o que acontece além da superfície é algo que Katic emprestou à sua personagem, um dos papéis femininos mais interessantes que povoam a TV a cabo. Um terreno que nem sempre tem lugar para uma mulher forte, uma líder.

Supõe-se que Beckett é a melhor detetive da equipe, os rapazes também são muito bons, mas ela é a líder. E eu gosto que seja assim. Desde o começo, os criadores da série queriam que ela fosse uma personagem forte, uma mulher que é muito boa em seu trabalho e que tem pouca tolerância para bobagens”, explica a atriz.

Claro que depois de quatro temporadas e uma trama que teve ela sofrendo bastante por causa do assassinato de sua mãe, neste quinto ano da série tudo se tornou um pouco menos dramático para Beckett. Grande parte dessa mudança se deve ao muito esperado e finalmente concretizado romance com o escritor Richard Castle (Nathan Fillion), que elegeu a detetive como musa de seus livros. Um relacionamento pelo qual Katic estava fazendo campanha há algum tempo com os escritores, que, finalmente, atenderam seu pedido.

Em certo ponto, eles tiveram que dar espaço para a personagem mostrar quem ela é além de sua vida profissional. Nós tivemos que adicionar um pouco de diversão para que ela não se tornasse muito solene e chata. Além disso, acho que ninguém acreditaria que, além de ser uma figura de autoridade, ela não tem nenhum interesse que não seja o seu trabalho. Também deve haver uma razão pela qual ela se sente atraída por este homem que de solene e sério não tem nada. Não pode ser só porque ela vive atrás das loucuras dele”, explica Katic, e revira os olhos, acostumada que em Hollywood a prática habitual dos roteiros são colocar as protagonistas femininas apenas como acompanhantes das aventuras dos masculinos. Não é o caso de Castle, que de agora em diante tem o esforço de conseguir que a crescente leveza dela e a esperada, porém, sutil maturidade dele não estraguem o equilíbrio da série que é um fenômeno além da tela da TV. Há livros escritos por “Richard Caste” e até quadrinhos dedicados às aventuras de Nikki Heat, a personagem criada com Beckett como musa.  Um universo que colocou Katic perto de ter sua própria action figure. Algo que poderia acontecer em breve. Especialmente se seu desejo de tentar a sorte como heroína de ação no cinema se realizar.

Eu adoraria fazer cenas de risco em frente a uma tela verde. Acho que seria uma experiência divertidíssima praticar meus movimentos ninja para as câmeras em um filme desses. Fiz algo parecido no filme The Spirit – O Filme, baseado em uma história em quadrinhos e dirigida por Frank Miller. Foi similar a trabalhar no teatro experimental, onde você tem um cenário vazio e tudo deve surgir da sua imaginação. Requer um tipo de interpretação bastante peculiar, é muito interessante. A verdade é que me sinto muito a vontade em qualquer set”, disse a atriz que nos últimos tempos participou do elenco de dois filmes aguardados pelo circuito independente. Por um lado, ela aparece em CBGB, filme que retrata a história do lendário bar nova-iorquino, local essencial para o punk norte-americano, interpretando Genya Ravan, uma cantora fundamental no movimento.

Eu precisava de uma experiência mais além do ciclo da TV, a possibilidade de interpretar uma personagem distinta, atuar em um cenário diferente. Além disso, neste caso, me tocou interpretar uma pessoa real, Genya Ravan, que eu conheci. Ela é fabulosa, tem uma voz incrível, me sentei com ela para escutar sua música, para ela me contar suas histórias no emergente punk de Nova York. Ela era parte desse mundo, era muito amiga do dono do CBGB, Hilly Kristal, interpretado por Alan Rickman. A maioria das minhas cenas foi com Rupert Grint”, relembra Katic, com um sorriso, por ter passado tanto tempo com um dos atores da saga Harry Potter, para o deleite de todas as crianças que passaram pelas filmagens. Esta não foi a única que ela participou este ano. Para demonstrar que há muito mais do que a detetive que a fez conhecida, a atriz interpretou a poetisa Lenore Kandel no filme Big Sur, que terá sua estréia mundial no Festival de Sundance, em fevereiro. Outra personagem baseada em uma pessoa real, outra artista e outra mulher forte para Katic que, apesar de não vir de uma família relacionada com o mundo da atuação, disse que sempre sonhou em fazer isso. “Queria explorar um ponto de vista de outras pessoas, de suas vidas. Eu adoro. Sempre quis fazer isso, porque eu senti que uma experiência de vida não era suficiente. Nunca foi o suficiente pra mim”, conta a atriz e fica pensando, como se estivesse procurando por outras razões do porque, desde a infância, quase instintivamente, ter escolhido que o faria no futuro. Fica em silêncio, sorri mais para ela mesma do que para o resto do mundo e retorna ao mesmo: “Sim, é por isso mesmo. Por isso escolhi ser atriz”.

Fuga para Los Angeles

Com a vocação firme e depois da distração causada pela faculdade de direito, “eu achava que salvaria o mundo e que toda a questão da atuação não era muito prática”, Katic começou a pensar em deixar Chicago e sua formação teatral para tentar a sorte em Hollywood.

Foi uma decisão difícil. Lembro-me que estava tentando tomá-la e a deixei com a sorte. Joguei alguns dados e decidi que se saísse o número que eu queria eu iria. E saiu meu número. Então, decidi me mudar em um mês; joguei os dados e saiu meu número também”, ri, recordando, mas o riso logo se torna emoção. “Quando eu estava prestes a ir, eu estava muito nervosa com tudo o que viria e porque seria uma viagem de quatro dias na estrada, sozinha e eu não sabia se meu velho carro resistiria à viagem. Então, minha mãe veio e me deu um colar dela para que me protegesse. E isso foi tudo. Me despedi dela, de meu pai, de todos e fui”, conta a atriz, e a memória daquele tempo a comove até as lágrimas. Embora em seguida ria porque reconhece que esse foi apenas o começo de sua aventura em Los Angeles, uma cidade não muito amigável com a legião de aspirantes a atores que compõe grande parte de sua população.

Ela é uma cidade tão grande que você nunca sente que está em uma cidade, porque não tem centro. As distâncias são enormes e os espaços não se unem. A gente está mais sozinha ali do que em qualquer outro lugar que eu conheça. E a maioria desse tempo você passa dentro de um carro, no meio do trânsito”, explica a atriz que decidiu deixar de reclamar e fazer algo para ajudar a mudar a cidade em que vive. Assim nasceu o Alternative Travel Project, uma iniciativa que propõe, entre outras coisas, substituir o automóvel pelo transporte público ou bicicleta. “Um dia, eu estava em meu carro e era a primeira vez que eu viajava de passageiro, porque meu irmão estava de visita, e foi uma experiência tão linda, tão relaxante não ter que estar preocupada com o trânsito e a possibilidade de bater, que comecei a olhar a cidade de outra maneira. É um lugar cheio de gente talentosa e criativa e com muitíssima influência que não deveriam ter problemas para implementar essa ideia de uma cidade melhor, mais desfrutável e menos associada aos automóveis. Os recursos estão lá, tudo o que é preciso é que Tom Cruise viaje de metrô uma vez”, conclui Katic, que estes dias está fazendo a sua própria viagem de metrô, mas em Buenos Aires.