Usar o trauma como fonte de força foi algo que parecia orgânico para a personagem. E pareceu honesto,” a estrela fala sobre sua série de suspense atual da Amazon.

Um bom herói ainda é difícil de se encontrar. Pelo menos, um que permanece bom. É fácil se perder, ao tentar fazer a coisa certa, e é ainda mais fácil se encolher e nem querer mais lutar. Apenas os corações mais fortes superam isso. Essa foi a jornada de Stana Katic, em Absentia. A atriz e produtora executiva vê um paralelo entre o anjo vingador que ela interpreta na série de suspense e o tipo de protagonista que as pessoas anseiam ver agora, mesmo em seu escapismo. Alguém que levou uma surra, mas ainda se levanta para lutar. Alguém que poderia se afastar, mas é levada a poupar os outros da angústia que ela sofreu.

“Para mim, ela conversa com qualquer um que faz parte de uma comunidade vulnerável, uma comunidade em risco,” disse a atriz à Vanity Fair. “Responsabilidade, agora, é a coisa inspiradora. É inflexível. É direto, as mensagens são claras e não há como escapar disso. É isso o que esse personagem fala, no fim: ela não aguenta tolice. Eu acho que há muito a se inspirar em pessoas que adotam esse tipo de postura ativa.

Não é exatamente uma história do movimento #MeToo, mas sim uma história metafórica extrema. Na série da Amazon Prime (no Brasil, exibida pelo Canal AXN), que acabou de lançar sua terceira temporada em 17 de julho, a ex-estrela de Castle interpreta a agente do FBI Emily Byrne, que desapareceu por anos e foi declarada morta por ausência. (Daí o título da série.) Na verdade, ela foi mantida em cativeiro por um agressor sádico, mas desconhecido, e mesmo quando finalmente escapou, encontrou toda a sua vida apagada. O marido se casou novamente; seu filho era um adolescente que nunca a conheceu. Seus colegas da polícia duvidavam que ela tivesse coragem de voltar e se perguntavam se ela era cúmplice de seu desaparecimento. Sua segurança física foi violada; a história dela foi posta em dúvida; sua percepção estava ferida. Ainda assim, ela continuo com firmeza.

Esta é uma personagem que não teve domínio sobre seu próprio corpo e vida por muitos anos,” disse Stana Katic. “Acho que a jornada de alcançar um espaço de empoderamento, de usar o trauma como fonte de força, foi algo que parecia orgânico para a personagem. E pareceu honesto.

A cada novo capítulo da história, Emily aprendeu mais sobre o motivo pelo qual ela foi levada – mas a conspiração por trás de seu sequestro nunca foi o único foco. Ao longo da história, ela tem sido a justiceira, levada a impedir que outros enfrentassem destinos semelhantes, ajudando mulheres e crianças à margem da sociedade, às vezes a um grande custo para si mesma.

Absentia tem sido um sucesso discreto, desenvolvendo seguidores fortes, mas silenciosos, sem se tornar um assunto popular habitual. No entanto, seus fãs são intensamente dedicados e Will Pascoe (Orphan Black) acredita que isso provém da emoção mais profunda em jogo. “Se eu puder distrair alguém da vida dela por 10 horas, seja o que for que essa pessoa esteja passando, bom ou ruim – se eu puder apenas entretê-la, enquanto ela estiver sentada no sofá à noite, ótimo. Isso é 90% do meu trabalho,” disse ele. “Mas os outros 10% estão abertos à interpretação. Posso envolver o público em alguma coisa? Posso esclarecer o público sobre alguma coisa? E, finalmente, posso dar poder ao público?

Para Pascoe e sua equipe de roteiristas, nesta temporada foi uma chance da personagem de Stana Katic enfrentar algumas das coisas erradas que eles vêem no mundo real. “Eu queria falar sobre o que estava acontecendo na nossa fronteira sul e uma das nossas roteiristas, Katrina [Cabrera Ortega], que é mexicana-americana, estava vendo famílias serem separadas na fronteira e dizendo: ‘Se isso acontecesse quando os meus tataravós vieram, eu poderia não estar viva agora’,” ele disse. “Eu fiquei tipo, ‘Bem, então como colocamos a sua história na série de uma maneira que faça sentido no mundo dela e dos personagens e estando na Europa?‘”

Eles encontraram este ponto de entrada nos refugiados de guerra da Síria que chegaram à Europa, depois de serem expulsos de suas casas, por causa do derramamento de sangue. “Milhões foram deslocados. Para onde estão indo esses milhões? Então, vamos falar sobre isso, vamos dramatizar isso,” disse Pascoe. “Você vê a ascensão de governos de extrema-direita surgindo em todo o mundo e pensamos: ‘Está bem, podemos, podemos falar sobre isso?’ Analisamos as eleições que foram fraudadas, chantageadas e comprometidas. Conseguimos usar isso na série também? Vimos empresas antiéticas, nesta temporada há uma empresa farmacêutica. Sim, também podemos explorar isso. Ironicamente, mesmo que estivéssemos escrevendo isso [nessa] época, no ano passado, e nos preparando para começar a filmar em agosto, muitas coisas da temporada se tornaram realidade ou estão nas notícias e a frente agora.

Um dos benefícios de filmar uma série como essa é o fato de termos pessoas vindas de todo o mundo,” acrescentou Stana Katic. “Tínhamos pessoas dos EUA, de Israel, da Costa Rica, da Inglaterra, da Bulgária, da Austrália, da África do Sul, da França, da Noruega, do País de Gales, da Polônia, da Suíça. Todas essas pessoas, desde os  produtores, elenco e equipe, tiveram uma tremenda quantidade de engajamento e discernimento nessas experiências. Eles testemunharam essas coisas. Eles foram capazes de acrescentar profundidade porque viveram parte dessa vida.

Nenhuma série de TV de ação pode mudar o mundo, mas o mito e a narrativa podem recarregar as baterias das pessoas comuns que podem. “Para mim, esse é o empoderamento, a coisa esclarecedora e envolvente que espero que pelo menos uma pequena parte do público capte,” disse Pascoe. “Quando elas terminam a temporada, elas ficam online e leem sobre campos de concentração ou sobre separação de famílias na fronteira ou sobre empresas antiéticas que agem acima da lei. Então, isso os torna cidadãos mais engajados no mundo, o que, com sorte, torna o mundo um pouco melhor em algum momento no futuro.”

Se Absentia fosse apenas sobre a Emily, apenas sobre resolver seu mistério pessoal, ela poderia ter ficado sem energia depois de uma temporada. Em vez disso, Stana Katic disse que se orgulha de ela ter se tornado uma narrativa sobre como o mundo está cheio de Emilys, algumas com mais dificuldades diárias. A personagem também está marcada e muitas vezes vai longe demais. Isso também faz parte da jornada. Quando eles apelam, ela nem sempre é o ser superior. Mas ela está tentando.

Como é para alguém que já viu o pior da humanidade e que talvez tenha cometido alguns desses atos e é possível para essa pessoa alcançar a redenção?” Stana Katic perguntou. “Eles são capazes de se aproximar daquela pequena chama, dessa pequena luz dentro de si? Na Emily, ela escolhe a fazer isso, sim. É isso que a torna uma heroína. Não sem suas próprias complexidades, é claro.